2.

Tenho-me deparado com uma vontade imensa de me sentar e simplesmente escrever. Mas escrever sobre quê? Adio a tarefa. A falta de inspiração é tramada.

Se fosse outra que não eu, sentava-me no alpendre da moradia, acendia um cigarro e olhava o céu como quem olha o demónio, culpabilizando-o pela minha frustração. Mas não tenho alpendre ou moradia. Não acredito em entidades satânicas. Não fumo, sequer. Nem Charles Bukowski posso imitar. Se hoje bebo, adormeço. As incertezas têm arruinado o meu sono.  Fico-me com a minha revolta e insatisfação, num quarto de apartamento, tentando distanciar-me da música medonha que a minha vizinhança teima em escutar.

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Estudo literatura há anos e a maioria da minha investigação tem procurado responder a uma questão: o que é um autor? Devo ser a lunática do século. Não só Michel Foucault tentou responder a essa questão como estou a destruir qualquer possibilidade de me tornar escritora. Estou num labirinto e não há Ariadne que me ajude a sair dele.  Penso no meu Henry Miller e, da cova, ele diz-me: esquece os mortos e escreve! Sim, porque tenho uma tendência natural para me dedicar aos defuntos. Aliás, à morte, de forma geral. Foi um dos temas cruciais da minha dissertação de mestrado. Pois é, Bragança: também tu contribuis para este legado esmagador, que me deixa em terra de ninguém.

 

O que é a inspiração? Os românticos alegavam que eram avassalados pelas ideias, de modo súbito. A mão, dotada de um poder incontrolável, começava a escrever aquilo que viria a transformar-se em textos de génio. Por outro lado, Edgar Allan Poe, no seu texto The Philosophy of Composition, afirmou que a lógica e a técnica dominam a criação literária como se de uma equação matemática se tratasse. Eu cá concordo com o  Miller. Ele dizia que a inspiração súbita é maravilhosa, mas o primeiro passo é cortar o cordão umbilical. Encontrar a própria voz é fundamental para a criação e, para tal, torna-se crucial afastarmo-nos de toda uma herança literária. Foi por esse motivo que o desatinado partiu para Paris.

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Pois, não sei. Peço desculpa se começaram a ler este breve texto na expectativa de algum esclarecimento. Escrevi sobre o facto de não conseguir escrever. Tenho a certeza que não fui a primeira e não serei a última. Vou agora dedicar-me à leitura (um vivo, desta vez) e agonizar mais um pouco.

 

 

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8 thoughts on “2.

  1. Ótimo texto! O mais difícil de escrever é, de fato, encontrar a própria voz enquanto se inspira em tantos autores já lidos. Mas pela forma do texto você já parece ter encontrado seu estilo, talvez falte apenas o cigarro e a bebida hahaha

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  2. Hey! Só queria dizer que adoro estes teus textos. Foi uma sorte encontrar o teu blog/insta (acho que foi no goodreads) e gosto muito de o seguir. Partilho desta tua luta com escrita, apesar de não ter a tua eloquência. Sinto que escrevo melhor quando estou vulnerável, e uso a escrita como uma defesa. Venham daí o 3, o 4, e por aí adiante 🙂

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